No período da tarde deste pleno verão, estava no escritório e acabei lembrado que esqueci de efetuar os pagamentos no banco. Dei uma conferida na cozinha, na procura de minha ausente ajudante que saiu para comprar açúcar no supermercado. Sem problema. Olhei pela janela, céu azul, trinta graus de temperatura e sem umidade. Ótimo.
Na mesa, separei os boletos na pasta e sai em direção à avenida com carteira e as chaves. Caminhando entre as pessoas, observei a minha volta tentando achar um tema diferente para a coluna. Naquele momento, tentava me decidir entre narrar à aventura da senhora de idade tentando subir no ônibus à cotoveladas ou na troca de simpáticos “elogios” entre um motorista e o motoboy. Nada muito emocionante.
Continuei minha caminhada pela calçada e olhei no relógio do canteiro central. O horário marcava 15h00 com uma temperatura de vinte e seis graus.
- O quê? - respondi boquiaberto, esperando a temperatura aparecer novamente.
Não era possível! A temperatura caiu quatro graus, em poucos minutos? Incrédulo, procurei, em vão, o conforto do céu azul vendo apenas grandes nuvens cinzentas.
- Vai chover! - disse em voz alta.
Minha preocupação começou a aumentar quando senti a primeira gota tocando meu cabelo. Apressei o passo para passar no semáforo e vi uma cena curiosa. Um rapaz que vendia acessórios para celular, retirou diversos guarda-chuvas de uma bolsa e saiu gritando:
- Olha o guarda-chuva! Dez reais! Temos todas as cores! Azul, preto, vermelho e verde! Dez reais!
Em segundos, o rapaz vendeu cinco guarda-chuvas para pessoas desprevenidas. Claro que era uma delas e comprei um preto. Cor básica. Pensei em pedir um recibo, mas quando olhei em volta o rapaz sumiu e a chuva aumentou.
Com meu guarda-chuva novíssimo em mãos, pressionei o botão metálico para abrir. Nada. Tentei outra vez, com uma pressão maior vendo meu dedo ficar vermelho como meu rosto. Nada. Senti a chuva aumentar formando poças na calçada esburacada. Fiquei nervoso e puxei as hastes para fora forçando a abertura. Cleckt. Quebrou!
Senti minha roupa colando no corpo e procurei um abrigo. Um orelhão verde a cem metros era minha única salvação. Sai em disparada, tentando desviar das poças. Uma. Consegui. Duas. Três. Quatro. Errei! Meu pé entrou inteiro dentro do buraco enlameado. Com a calça e tênis encharcados, me aproximei dos últimos dez metros. Meus dedos quase tocavam o orelhão salvador. Cinco metros. Quatro. Fechei meus olhos e lancei meu corpo em um salto acrobático. Senti meu corpo leve e o vento tocando meu rosto. Parecia uma perereca em pleno ar. Abri os olhos para ver onde estaria pisando e me deparei com um enorme muro rosa. Coloquei as mãos como proteção e senti meu rosto afundando nas costas da senhora de cento e cinqüenta quilos. Gritei. Ela não respondeu.
- Ah é? - Fiquei irritado e tentei empurrar aquela muralha da China um centímetro para o lado. Nada. Tentei outra vez. Nada. Com minha roupa encharcada e a água descendo pelas pernas, desisti de lutar. Sob a chuva incessante, continuei caminhando para o banco e vi uma multidão aglomerada na entrada tentando se proteger. As pessoas abriram um corredor de passagem para evitar molhar suas roupas secas. Não liguei para isso. Em poucos minutos, paguei todas as contas e me virei para ir embora.
- O quê? - Na entrada do banco todos foram embora. Olhei para o lado de fora e o sol começava aparecer entre as nuvens. Uma senhorazinha matuzalem de cem anos ao meu lado, bateu lentamente a bengala na minha perna e comentou:
- Chuvas de verão, meu filho. Chuvas de verão. É só esperar...
Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.
São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.
Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.