Aventuras Cotidianas

07/12/2005

Feriado na Praia com Vizinhos - FINAL!



(Conforme o pedido de inúmeros leitores, segue abaixo o final desta aventura na praia. Divirtam-se).

Era agora. Quando a senhora Perón terminou de bater a foto, grudei meu sorriso de simpático vizinho no rosto e voltei para minha cadeira. As pessoas na areia continuavam me olhando como se fosse um dos integrantes da família Carrossel. Quase gritei alto em português, mas me contive.

Mesmo longe, tinha a sensação nítida que o Dieguito continuava me olhando. Não podia ficar ali. Peguei minha cadeira e sai em disparada pela praia. Corri. Sem olhar para trás, já esperava alguém gritar “Pega ladrão”, mas as pessoas só me olhavam, tentando entender de quem estava correndo. Bem, vendo a cena deste ângulo, eu parecia um desesperado bufando sem ar, correndo com uma cadeira na mão e com a outra, tentando manter os óculos que saltavam no rosto.

Acho que corri uns dez minutos. Tudo bem é mentira. Foram uns três minutos no máximo, antes de começar a sentir as pernas reclamarem e os cabelos grudados com areia. Parei. Tinha de respirar. Olhei à frente e vi um canto milagroso da praia, aparentemente intocável. Forcei a vista ao redor e não havia ninguém. Esbocei um verdadeiro sorriso de satisfação.

- Isso... - comemorei enquanto abria a cadeira e esticava as pernas na areia fofa. Fechei os olhos para sentir a brisa suave.

- !Mira la pelota!

Abri os olhos aterrorizados procurando a origem daquele som. Estava vivendo um pesadelo acordado. Não podia ser. O carajo daquele argentino de bermuda arriada estava ali, a menos de cem metros jogando futebol com o filho. Sou realista em dizer que não entendo de futebol, mas desde quando argentino sabe jogar? Tinha certeza de que veria aquela bola voando em minha direção. Vou embora! Sem pensar duas vezes, voltei para o prédio mantendo uma distância segura daquela versão praiana da La Bombonera.

No lobby do prédio, olhei freneticamente para os lados. Nada. Arlindo, o porteiro, não estava e entrei voando no elevador apertando o botão com o dedo sujo de areia. Minutos depois, entrei no apartamento, fechei todas as trancas, as cortinas e tirei o telefone do gancho.

- Ufaaa... - respirei aliviado vendo a secretária eletrônica piscando. Liguei para ouvir enquanto me direcionava para o banheiro. Minha mulher deixou um recado dizendo que não poderia vir. Teria de me encontrar com ela amanhã em casa. - Tudo bem, tenho o dia todo para relaxar...

Sem pensar em mais nada, estirei-me no sofá ligando a televisão. Delícia. Passava um ótimo filme e, parado ali, fiquei absorto nas imagens deixando meus olhos pesados. Tinha a sensação de paz, tranqüilidade, enquanto as horas avançavam e o dia ia embora. Isso que era descansar sem lembrar dos...

BLEMMMM. BLIMMMMM. BLEMMMMM.

A campainha! Pulei sobressaltado com o coração na mão. Fiquei imóvel com os músculos travados virado para a porta. Vi uma sombra ali. Esperei um pouco. Com certeza alguém tocou no apartamento errado, pois não esperava...

BLEMMMM. BLIMMMMM. BLEMMMMM.

Na ponta do pé, me aproximei da porta como um gato, em silêncio. Cuidado. Se a madeira rangesse, saberiam que tem gente em casa. Aproximei do olho mágico apoiando as mãos no batente da porta. Tentei focalizar a vista no corredor. Cadê? Não tinha corredor. Parecia embaçado. Quando tentei entender a cena, algo piscou. Ele. O Dieguito espremendo o rosto no olho mágico. Quase caí para trás. O que ele fazia ali?

- !Oye cabrón! - gritou o argentino no meu corredor.

Deveria estar sonhando. Belisquei meu braço. Não. Estava bem acordado. Olhei as horas que marcavam 19h38. Porque ele não sumia? Talvez participar de um panelaço lá nas terras dele ou dançar tango com a senhora Perón com a aquela bermuda elegante?

BLEMMMM. BLIMMMMM. BLEMMMMM.

- Oye cabrón, yo sé que estás ahí. Tu coche está abajo y Arlindo me há dicho que no haz salido! - gritou o Dieguito apertando o botão da campainha, que eu odiava o som.

BLEMMMM. BLIMMMMM. BLEMMMMM.

Permaneci calado e parado perto da porta sem me mexer. Se não respondesse, ele desistiria. Voltei a olhar no olho mágico para ver o Dieguito indo embora. Que nada. Vi que ele olhava em volta, certificando-se que estava sozinho. O corredor realmente estava vazio. Aos poucos, reparei que ele foi se abaixando, abaixando e ficando próximo da porta. O quê? Ele vai olhar pelo vão da porta! Abri minhas pernas rapidamente, esticando-as elas até o batente. Tuc. Ouvi o argentino batendo o rosto na porta. Contive o riso e me apoiei em uma perna para continuar a observar pelo olho mágico.

- ¡Cabronóóóóónn! - chamou lentamente para ver se me achava. Tec. Tec. Ele levantou o braço mexendo na maçaneta. Esse Maradona deve ter usado drogas antes de vir aqui. Drogas pesadas. Bolinhas! - ¡Cabronóóóóónn! Yo se que estás ahi, escondéndote. Me encanta este juego.

- Ele não desiste? Eu também não vou! - eu disse em voz baixa mantendo o equilíbrio - O que ele vai fazer?

Desta vez, foi eu quem espremeu o rosto no olho mágico. Tentei entender a cena. O Dieguito continuou agachado e da bermuda, retirou um objeto metálico. O que era aquilo? Parecia, sim! Era um canivete!

- A maçaneta! - pensei lembrando dos filmes de ação. Não era isso. Ele abriu o canivete deixando a lâmina mais longa para fora. Aquele metal brilhava bastante. Brilhava? - Ele vai usar como espelho!

- !Oye Cabrón... Dónde estás?

O insano do Dieguito colocou a lâmina por baixo da minha porta. Minha perna. Ops, Quase. Troquei as pernas de lado. A lâmina foi deslizando e riscando o meu chão de madeira. Estava vendo a cena com dor. Ele teria que trocar a lâmina para ver o outro lado. Sim, tinha uma chance. Minha carteira estava na mesa de canto onde ele poderia ver. Precisava pegar e me esconder. Sim, Mack! Ele começou a voltar. Vai, na contagem de 3. Estava virando. Ainda não. 2. Quase. Ele vai trocar. Sim, 1. Vai!

Saí rapidamente pisando na ponta dos pés enquanto ele puxava para ver o outro lado. Saltei pegando a carteira e me escondendo atrás do sofá. A lâmina entrou riscando novamente o chão. Consegui! Aquele argentino louco estava espiando minha casa. Fiquei ali, atrás do sofá tomando o cuidado para não ser visto. A lâmina deslizou o lado todo.

- ¡Vale! Nos veremos... - ameaçou o argentino.

Aquela invasão demorou pouco tempo. Aparentemente ele tinha desistido. Tirou a lâmina, e eu vi a sombra sumindo do corredor. A porta do elevador fez um barulho e o silêncio voltou a reinar naquele andar. Claro que não ia me arriscar. Fiquei ali mesmo. Deitei atrás do sofá olhando para o teto. Aos poucos, fechei os olhos e dormi profundamente.

Dia seguinte. Acordei cedo, disposto a sumir da praia por um bom tempo. Voltaria somente no mês que vem, semestre que vem, quem sabe no ano que vem. Não sei. Peguei tudo, coloquei no carro e pé na estrada. Quando me dei conta, já tinha subido a serra, quando meu carro...

(continua abaixo)...

Escrito por Mack às 14h16
[]



TRUCCCCCC. TRUCCCCCC.

Olhei para os conta giros e vi que a gasolina acabou. Como assim? Enchi o tanque antes de sair da cidade. Parei no acostamento. Nenhum carro passava nesse horário! Desci e retirei do porta-malas o galão. Lembrei que o posto ficava à quilômetros de distância. Iria morrer se tentasse chegar a pé. Era melhor pegar uma carona. Olhei para a estrada e nenhum carro parava para ajudar.

Apenas um. Estranhei. Um carro um pouco antigo. Será que era roubado? A placa era bem diferente, ou melhor, a cor era diferente. Uma cor azul. Azul? Ouvi uma música latina dançante de fundo. Tango? Nãããããão. Forcei a vista e vi quem dirigia aquele carro. Ele, Dieguito! Tentei esconder o galão e fingir que admirava a paisagem. Não deu certo!

- ¡Que pasa? ¡ Problemas com el coche? - perguntou o argentino vendo o galão. Como ele poderia saber? Não. Ele não fez isso. - Sin nafta?

- Sim, Maradona... - respondi vendo o circo no carro. Uma zona. Não vou entrar ali.

- No te preocupes¡ Venga! Te levaré hasta la servicentro! - disse abrindo a porta.

Não tinha jeito. Entrei a contra gosto, espremendo-me no banco da frente com a senhora Perón e o Dieguito. Atrás, as crianças brincavam e berravam sem parar. Não dava para entender a música e nem a gritaria. O argentino ligou o carro e seguiu pela estrada.

- No ablas espanhol?

- Nem abro e nem fecho... - respondi sentindo o joelho do aborrecente pressionando as minhas costas. Parecia um pico de montanha de tão envergado que estava para frente, mas continuava sorrindo.

- ¡Que deciste? - indagou o Dieguito.

- Nada. - fiz um sinal por causa do barulho enquanto minha cabeça virava uma mesa de ping pong com as boladas do chiquitito. Inclinei o banco para trás, travando as pernas dele. Hehehehe. Quem manda agora, hein?

Estava quase desistindo quando vi o posto milagroso. Apontei para o Dieguito que fingiu não ter visto. Esperei ele virar, mas ficou imóvel. Em um ato de desespero, segurei na direção e forcei a virada. O carro quase derrapou e entrou em alta velocidade no posto. Cheguei.

Saltei do carro antes de parar e andei rápido em direção a bomba. Ali era minha salvação temporária. Longe deles. Olhei para trás. A família Carrossel continuava parada. Não foram embora.

- Ele vai querer me levar de volta. - pensei em voz alta rezando por um milagre. Apenas desta vez. Um milagrezinho. Bem, foi quase um, quando vi uma Kombi caindo aos pedaços com bandeiras argentinas entrando no posto. O que estava acontecendo? Era uma invasão?

Aquele bando de Carlitos saiu comemorando do carro e claro, o Dieguito mostrou a camisa que estava vestindo da seleção de uns trinta anos atrás. Era minha chance. Estava enchendo o galão quando ouvi meu nome sendo dito. Não entendi. Olhei de rabo de olho e vi o Dieguito apontando para mim! Ele queria me apresentar à torcida organizada da La Bombonera! Nem pensar.

Fugir. Tinha de correr dali. Como? Ao lado, vi um caminho adentrando pelo mato que era alto o suficiente para me cobrir. Se desse certo, poderia seguir por ali até o carro. Sim! Daria certo. Terminei de encher o galão deixando o dinheiro em cima da mesa. Fingi que ia para a loja de conveniência, mas entrei voando pelo atalho. Corre Mack.

Não vi mais nada. Corri. Corri. Só de lembrar da sensação dos argentinos corria mais ainda. Depois de uma meia hora ou mais, vi meu carro adiante. Suava em bicas. O corpo dolorido. Olhei ao redor. Nada. A estrada estava vazia.

Como fugitivo, aproximei do carro tirando o galão e enchendo o tanque. Pronto. Hora de ir embora. Entrei e vi um papel pendurado pelo lado de fora do pará-brisa. Saí, retirei e abri lendo o nome e telefone dele. Do Dieguito. Meu coração palpitou desesperado e me certifiquei que estava sozinho. Tudo tranqüilo. Mesmo assim, senti que estava sendo observado. Alguém estava me olhando. Não tive dúvida. Liguei o carro, acelerei e vi a placa de volta para a cidade.


Obs. Muito obrigado a Gisele Ribeiro, pelo espanhol, português e paciência!!!


Escrito por Mack às 14h16
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Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.

São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.

Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.

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