Digitava sem parar no teclado pensando na coluna desta semana. Hoje, o primeiro dia útil do ano, sentia-me concentrado e maravilhado com as palavras mágicas que surgiam na tela tornando-se frases. Depois da virada do ano, energia renovada, a inspiração transbordava em minhas veias para escrever a primeira coluna do ano. Algo mágico. Um texto para motivar as pessoas neste ano que se inicia, um verdadeiro...
TRILIIMMMMM. TRILLLIMMMM. - Alô? - atendi distante, focado na minha inspiração matinal. - Alôooooooo? - gritou com uma voz fina de uma senhora de dentro da caverna - Puur favor, chama o Rodoaldinho aí! - Oi? - disse voltando a realidade. Não entendi nada. - Um minuto! - respondi tentando me concentrar nas duas últimas palavras. - Oia, desculpa! Só eu que chamo meu neto assim, o Rodoaldinho, mas o nome dele é Rodoaldo! Avisa de moi que quero dar uma palavrinha com ele! - insistiu a mulher.
Merda. Perdi a concentração. Olhei desconsolado para a frase.
- Minha senhora, não tem nenhum Rodolfo aqui não! A senhora ligou no número errado. Desculpe e até logo! - desliguei sem pensar duas vezes. Rodolfo? Ronidlo? Não importa! Olhei de novo para o texto, tentando concentrar-me. Onde parei? Haaa, sim lembrei!
TRILIIMMMMM. TRILLLIMMMM. - O que é? - atendi irritado. - Alôooooo? - a voz insuportável da mulher - O Ronoaldo! Aqui, quim fala é Ronildilina, avó dele... Avisa que...
Tirei as mãos do teclado, fechando os punhos para socar a mesa. Inspirei calmamente. Era a primeira ligação do ano. 2006. Um tempo de paz, Mack. O que custava ser gentil em explicar a esta senhora, que não havia uma pessoa com aquele nome na minha casa?
- Senhora, imagino que a senhora se confundiu. Não tem ninguém com a merda desse, quer dizer, com este maravilhoso nome aqui. A senhora deve ter discado o número errado... - Num foi, num senhor. Ai é da casa do meu neto. Num precisa insconder ele não! Qual seu nome? - Mack. - Maqui? - Não, Mack. - Marqui? De Marcos? - Não, é Mack. Nome próprio com k mudo. - Mackudo? Isso é palavrão! - Não é, senhora. Se soubesse pronunciar, sairia direito. - Marquinhos, você é o amiguinho dele? - Não sou amigo de ninguém, minha senhora. Já disse para você que não mora ninguém com esse nome aqui. A senhora deve ter apertado algum botão errado. Qual número a senhora discou? - Mas eu num quero papear com você, Marquinhos. Chame meu neto ai. - Eu também não quero! Qual número a senhora discou? - Que número é ai? - perguntou a velha sem dente. - Se a senhora me disser o número, digo se está correto ou não. - Você pode mentir Marquinhos... - Pela enézima vez, é Mack! E não vou mentir no primeiro dia do ano, minha senhora! Qual a número? - Hein? - O NÚMERO! - Num entendi! - ESTOU DIZENDO, QUAL O NÚMERO QUE A SENHORA DISCOU! - Qual número é ai? - Ai meu deus! - Que gracinha, o amiguinho do meu neto é religioso! Chama ele, é o Ronoaldo! Sabe, a mãe dele achava bunitinho o nome de Ronaldo e o pai de Aldo, então, di modo que juntaram tudo e ficou... - Minha senhora! Já disse que ligou errado. Aqui o número é 43232-5439. Qual número a senhora discou? - Hein? Número? Qual você disse? - 43232-5439 - 5469? - 5439!!!!! - Hummm, perai ai que vou pegar meus óculos na sala. - Não acredito nisso... - comentei em voz baixa olhando para a tela em branco, tentando relembrar o que estava escrevendo. Reli a frase enquanto esperava pacientemente à senhora voltar ao telefone. Olhei os minutos. Comecei a tamborilar meus dedos na mesa. Três minutos. Silêncio no telefone. - Ela deve ter morrido... - pensei desligando o telefone e lembrando-me do texto. Digitava mais rápido deixando as palavras fluírem na minha mente.
TRILIIMMMMM. TRILLLIMMMM.
Olhei para o telefone. Atendi e desliguei no mesmo movimento. Fui atrás do fio e desliguei na tomada. Pronto. Não precisava mais atender. Voltei a digitar. Precisava terminar o texto antes de enviar para revisão.
TRILIIMMMMM. TRILLLIMMMM.
O telefone da sala ecoou na casa. Estava sozinho e não tinha outra pessoa para atender.
Irritadíssimo, corri para a sala com a pretensão de tomar uma providência. Refleti por um momento.
TRILIIMMMMM. TRILLLIMMMM.
Brigar com ela não ia adiantar. Atendi ao telefone com outra idéia.
- Bom dia, Funerária BOAS ALMAS, em que posso ajudar? - disse com a voz mais suave do mundo. - Alôooooooo é o Marquinhos? - perguntou a senhora.
Uma imagem clara apareceu na minha mente. Tinha certeza que aquela senhora era o tipo de ficar ao lado de uma escrivaninha de madeira redonda com bordado, um telefone preto e sem nada para fazer da vida, além de tricotar!
- Não, aqui é da funerária BOAS ALMAS, onde seu conforto do outro lado é nosso compromisso. A senhora gostaria de encomendar um pedido? Pela sua voz, é melhor a senhora se precaver! - Oi Marquinho, sabia que era você! Você que é o amiguinho do meu neto, sabe. Meu neto, o Ronoaldo. A mãe dele gostava do nome de... - Eu já sei da história, minha senhora. Como já lhe disse nos últimos dez minutos, não tem ninguém com a porra desse nome aqui! Moro aqui já faz anos e não conheço nenhum Rodolfo, Ronildo, Ronaldo, sei lá como se chama seu neto! - É... - Portanto, tem um lugar que a senhora deveria ir que é a casa do... - Mais ai, não é 43232-5430. - Não, é 43232-5439 - Hein? - 43232-5439! - Termina com zero? - Não, minha senhora, termina com 9! NOVE!!! NOVE!!! - Haaa, tá bom. TU.TU.TU.TU.TU.TU.TU. - Que @#$@#$@#! - respondi indignado - Esqueci o que ia escrever!
Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.
São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.
Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.